Ser perseguido por um estranho, ser jurado de morte, ficar paranóico, tudo bem. Mas ser traído era algo que Helmuth não aceitaria de forma alguma. Voltou para casa irritado, retirou do fundo do baú, um revólver calibre 38, pegou uma garrafa de cachaça e começou a se embebedar até não lembrar mais.
Uma forte dor de cabeça abriu a manha de sábado do escrivão. Na verdade, à tarde de sábado, já que Helmuth acordou às 13h. A mulher e a filha não estavam em casa.
O escândalo da queima de arquivo de 1956 estava na manchete da edição do dia. A polícia estava reabrindo o caso, por causa de novas denúncias. Era mais uma preocupação para o escrivão, que tinha que trabalhar naquela tarde.
No fórum, Helmuth tentava se concentrar no serviço, mas não conseguia. O amigo empresário se envolvendo em problemas, o escândalo de 56 de volta aos jornais, a esposa andando com o inimigo, o delegado pedindo ressarcimento pela aposta mal feita, tudo estava se voltando contra o escrivão.
Sozinho no trabalho escutou barulhos de tiro na rua. Foi ver o que era e descobriu que se tratava de um concurso de tiro realizado no Biergarten, em frente à prefeitura. Voltou ao serviço e ouviu uma pessoa berrando de dores na rua.
Saiu preocupado saber quem era, pois se tratava de uma voz feminina. Era uma atriz, do circo que assustou Helmuth no jornal, chegando na cidade com a trupe. Ela berrava em alto e bom som para todos que andavam na Rua XV de Novembro: “Você vai morrer – de tanto rir”.
Tudo o que ocorreu na vida de Helmuth eram sinais ou apenas coincidência? Na dúvida, o escrivão já planejava mudar de cidade, para fugir das pessoas que atormentavam sua vida. Ele não se sentia mais seguro na cidade.
Helmuth foi até a cozinha, nos fundos da prefeitura, preparar alguma coisa para comer. Meia hora depois, saiu do local e voltou ao trabalho. De volta ao serviço, pensou na possibilidade de queimar mais documentos, da esposa, de Carlos Pfaffendorf, de Wilson e de outras pessoas que estavam deixando o escrivão paranóico.
Colocou documentos dos nomes citados em uma vasilha e saiu à procura de álcool dentro da prefeitura. Foi então que Helmuth percebeu a fumaça de dentro do fórum. Outra sala já estava queimando.
Saiu então à procura de um extintor de incêndio. Mas era tarde demais. O fogo se alastrava por dentro do prédio da prefeitura e já atingia todo o fórum. Procurou então fugir do local, mas não encontrou nenhuma saída que estivesse livre das chamas.
Foi o maior incêndio que a cidade tinha visto. Metade do prédio da prefeitura, onde ficava o fórum, foi destruído pelas chamas. Um problema de curto-circuito foi apontado como causa do acidente. O local seria reconstruído apenas 42 anos depois, na comemoração dos 150 anos de Blumenau.
A esposa, o amigo Wilson, o delegado, o inimigo Carlos, todos eles sabiam que Helmuth trabalharia naquele sábado, 8 de novembro de 1958. Teria sido algum deles o responsável? O incêndio seria para queimar arquivos ou para queimar o responsável pelo sumiço de documentos? Ou seria tudo uma grande coincidência do destino, reforçado pela paranóia do escrivão? Helmuth morreu na dúvida.
FIM